Florianópolis e a especulação imobiliária: a ilha que está sendo vendida
O boom imobiliário de Florianópolis está transformando a cidade mais rápido do que seu planejamento urbano consegue acompanhar.
Existe uma Florianópolis que os moradores de longa data reconhecem cada vez menos. Não é a ilha das praias e da qualidade de vida que aparece nas listas de "melhores cidades para se viver". É a Florianópolis dos condomínios de luxo que surgem onde havia mata nativa, dos aluguéis que triplicaram em cinco anos, dos congestionamentos que tornaram o trânsito comparável ao de cidades muito maiores.
O boom imobiliário que transformou Florianópolis em destino de investimento nacional e internacional trouxe renda, emprego e visibilidade. Mas também trouxe problemas que a cidade não estava preparada para enfrentar.
Quem está comprando
O perfil do comprador de imóveis em Florianópolis mudou significativamente na última década. Além dos catarinenses e gaúchos que sempre foram os principais compradores, a cidade passou a atrair investidores do Sudeste, estrangeiros — especialmente argentinos e europeus — e, mais recentemente, nômades digitais que buscam qualidade de vida combinada com conectividade.
Cada um desses grupos tem poder aquisitivo superior ao da população local. O resultado é uma pressão sobre os preços que expulsa moradores tradicionais para municípios vizinhos ou para a periferia continental da cidade.
O planejamento que não acompanhou
Florianópolis tem um Plano Diretor que foi atualizado há poucos anos. Mas planos diretores são documentos — a realidade é outra. Aprovações de construção em áreas de preservação, licenciamentos questionáveis, pressão política sobre órgãos de fiscalização ambiental. A distância entre o que o plano diz e o que acontece na prática é grande.
Não é uma história única de Florianópolis. É a história de qualquer cidade que se tornou desejável sem ter desenvolvido os mecanismos para gerir essa desejabilidade de forma equânime. A pergunta é: quem vai pagar o preço?